Proeja
PRESSUPOSTOS GERAIS
Este texto é parte integrante dos documentos que fundamentam o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos - PROEJA -, por essa razão, incorpora-se aqui toda a discussão acerca
da problemática da Educação Básica brasileira que integra os capítulos 1 e 2 do Documento Base do PROEJA (BRASIL, 2006), respectivamente “A Educação de Jovens e Adultos no Brasil” e “Percursos descontínuos e em descompasso em relação à Educação Básica no Estado brasileiro”. Entretanto, o referido Documento Base tem o enfoque na integração entre o ensino médio e os cursos técnicos de nível médio, enquanto este tem por objetivos fazer uma reflexão e propor fundamentos acerca da integração entre a formação inicial e continuada de trabalhadores
e os anos finais do ensino fundamental na modalidade de Educação de Jovens e Adultos – EJA.
Este capítulo está organizado em duas seções – na primeira, discutese a Educação Básica com ênfase no acesso, qualidade e permanência no ensino fundamental e suas implicações tanto para as crianças e adolescentes da denominada “faixa etária regular” como para o público
EJA. Na segunda, aponta-se para a necessidade de integrar os anos finais do ensino fundamental, na modalidade Educação de Jovens e Adultos, com a Educação Profissional/formação inicial e continuada, a fim de tornar essa etapa de escolarização mais significativa para o público da EJA.
ACESSO, PERMANÊNCIA E QUALIDADE DA EDUCAÇÃO BÁSICA EM GERAL E DO ENSINO FUNDAMENTAL EM PARTICULAR: O QUADRO ATUAL
No ensino fundamental, a universalização do acesso está sendo alcançada, mas problemas como a qualidade dos processos educacionais, a dualidade público versus privado, a repetência e a evasão persistem. Aproximadamente, 97% das crianças de 7 a 14 anos têm acesso ao ensino
fundamental, entretanto deficiências dos sistemas de ensino que se refletem na escola terminam provocando a evasão das crianças das classes populares do ensino fundamental.
Assim, vem se constatando que os fundamentos das práticas pedagógicas permanecem reproduzindo modelos culturais de classes sociais diversas das dos alunos, contribuindo para o fracasso escolar e a chamada evasão. Além disso, muitos dos que conseguem chegar ao final do
ensino fundamental sequer dominam a leitura, a escrita e os conhecimentos inerentes a essa etapa de escolarização.
No que se refere à dualidade entre a oferta pública e privada do ensino fundamental, os números do Censo Escolar 2005 revelam que, do total de 37.432.378 estudantes matriculados no ensino fundamental, incluindo a modalidade Educação de Jovens e Adultos, 91,80% estão em escolas
públicas, enquanto 9,2% estudam em escolas privadas. No ensino médio, a proporção é semelhante, pois 88,2% da população está matriculada em escolas públicas. Entretanto, no ensino superior há uma inversão completa, a começar pelas porcentagens de matrícula, pois quase 71% dessa população está em instituições privadas. Além disso, os que vão, majoritariamente, para os cursos de maior concorrência na educação superior pública, em geral, são os poucos que estudaram na iniciativa privada no ensino fundamental e no ensino
médio. Enquanto isso, parcela significativa do pequeno contingente de filhos das classes populares que logram uma vaga no ensino superior, o fazem, em sua grande maioria, em instituições privadas. Isso acontece não por opção, mas porque a Educação Básica que lhes foi destinada confere um certificado, mas não os conhecimentos necessários ao competitivo
processo de seleção com vistas ao ingresso nos cursos mais concorridos e reconhecidos oferecidos pelas instituições de educação superior públicas (MOURA, 2006). Esse é, em linhas gerais, o fluxo percorrido pelos estudantes brasileiros dentro de suas respectivas classes sociais. Um fluxo que continuará perpetuando a reprodução das classes, via sistema educacional, caso não
sejam produzidas mudanças significativas na educação pública e gratuita, em todos os níveis, com vistas à melhoria de sua qualidade e à ampliação de vagas destinadas às classes populares (MOURA, 2006). Portanto, a correção desse fluxo começa obrigatoriamente pelos primeiros anos de escolarização, ou seja, na educação infantil e no ensino fundamental. Neste trabalho, em função dos objetivos próprios, o esforço de análise se concentrará no ensino fundamental.
Paralelamente ao processo pelo qual as políticas públicas se voltam para a chamada universalização do atendimento e a escola básica deixa de ser elitizada, passando a atender também as classes populares, torna-se evidente que o acesso não é suficiente para dar conta das aprendizagens e dos processos de produção de saberes. Assim sendo, é necessário buscar as raízes dessa problemática, que vem se constituindo como um fator significativo da grande quantidade de jovens e adultos que sequer concluíram essa etapa da Educação Básica no Brasil.
Dentre as dificuldades que afloram diretamente nas escolas, mas cujas origens estão na estrutura da sociedade e nos próprios sistemas de ensino, merecem destaque as questões relacionadas às concepções de educação e às práticas pedagógicas; ao financiamento da educação; à gestão desses sistemas e das escolas especificamente; à infra-estrutura física; à formação dos professores, assim como ao déficit quantitativo desses profissionais. No que diz respeito ao financiamento - reconhecidamente insuficiente para o atendimento da demanda educacional da sociedade brasileira -, recentemente entrou em vigor o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - FUNDEB -, em substituição ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério - FUNDEF -, que só garantia vinculação constitucional de recursos para o ensino fundamental. Assim, o FUNDEB amplia essa vinculação para a educação infantil, para o ensino médio e para a modalidade EJA. Evidentemente, o aumento de 15% (Lei nº 9.424/1996) para 20%, após o quarto ano de implantação do FUNDEB, sobre uma base de arrecadação constituída a partir da mesma lógica do FUNDEF, realmente representa um maior volume de recursos
destinado à educação. Entretanto, a criação e a implantação do FUNDEB também aumentarão
substancialmente a população atendida. A título de exemplo, utilizando- se dados de 2005 do INEP, o FUNDEB teria que atender, além das 37.432.378 matrículas do ensino fundamental (única etapa que era contemplada pelo FUNDEF), as 10.748.894 matrículas do ensino médio, ambos incluindo a oferta denominada regular e a modalidade Educação de Jovens e Adultos, e também as 7.205.013 da educação infantil. Também é importante esclarecer que, atualmente, no ensino médio apenas 51% (LODI, 2006) dos jovens de 15 a 19 anos são atendidos, o que implica a expectativa de um aumento significativo da matrícula nessa etapa nos próximos anos e, por conseguinte, de recursos para financiá-lo. Diante desse contexto, torna-se imprescindível acelerar a tramitação do Projeto de Lei de iniciativa do Senador Paulo Paim do PT-RS, que visa à
criação do Fundo de Desenvolvimento da Educação Profissional - FUNDEP - e, portanto, a definição de uma fonte perene de financiamento para a Educação Profissional, esfera na qual também estarão situados os cursos provenientes da política pública em discussão neste documento. Quanto à gestão dos sistemas de ensino, não são poucas as dificuldades.
Uma das mais significativas decorre das descontinuidades das políticas públicas na esfera educacional. Um aspecto que contribui para essa realidade é a elevada taxa de rotatividade dos dirigentes educacionais nos municípios, nos estados e, inclusive, no âmbito federal. Essa elevada alternância associada à falta de uma política de estado para a educação contribui para que alguns dirigentes, ao assumirem os cargos, promovam sua própria política educacional ou a do grupo político-partidário ao qual pertencem. Some-se a isso o fato de que dentro de cada ciclo de quatro anos de governo, costuma haver mudanças entre os dirigentes educacionais. Evidentemente, esse quadro não é generalizado, entretanto, afeta grande
parte do território nacional. Também há casos em que a gestão das unidades educacionais contribui para a inadequação da escola às necessidades da população. Nesse domínio, muito se tem falado e escrito acerca da gestão democrática, mas, na verdade, pouco de concreto se realizou. Em muitas regiões do país, a escolha dos dirigentes escolares está atrelada à vinculação dos postulantes a um alinhamento político-partidário com o grupo que detém o poder estadual ou municipal em cada momento histórico. Em outros casos, quando se supera a barreira da indicação pela via mencionada, a concepção de gestão democrática é reducionista e se resume,
muitas vezes, à eleição para o cargo de dirigente escolar. É claro que isso pode representar um avanço em relação à simples indicação, entretanto, é apenas um indicador, longe de ser determinante de uma gestão efetivamente democrática.
Para que a gestão escolar avance na perspectiva de se tornar efetivamente democrática, é urgente buscar a superação dos processos decisórios centrados nos indivíduos ou em pequenos grupos - mesmo que eleitos - em benefício de processos de construção e decisões coletivas,
que devem envolver, além dos dirigentes, os docentes, o pessoal técnico- administrativo, os estudantes, os seus familiares e a própria comunidade onde está inserida cada unidade escolar.Um fator essencial de construção coletiva em cada escola é o respectivoprojeto-político-pedagógico (PPP). Ao adotar esse referencial, seguramente, se estará contribuindo para que o PPP de cada escola deixe de ser uma mera formalidade exigida pela Lei de Diretrizes e Bases da EducaçãoNacional. Esse princípio - o da construção coletiva - quando levado à prática, pode contribuir efetivamente para que a comunidade escolar compreenda a sociedade onde está inserida, o papel da educação nessa sociedade, a função social da própria unidade escolar, o papel dos profissionais que nela trabalham e o significado dos conteúdos e das atividades pedagógicas selecionados. O PPP elaborado a partir dessa concepção poderá contribuir para o fortalecimento da relação teoria-prática e o aperfeiçoamento do fazer pedagógico nas escolas.
A formação de professores, tanto inicial quanto continuada, constituise como elemento central, quando se trata da docência na educação brasileira. Entretanto, há outras dimensões que precisam ser consideradas como a carreira docente, a necessidade de reconhecimento social
e econômico, as adequadas condições de trabalho, inclusive a segurança física e patrimonial, e uma contínua avaliação e assessoramento dos processos pedagógicos das instituições. Assim, é necessário pensar todas essas dimensões de forma relacional, pois apenas a questão salarial e as deficiências na formação dos docentes não podem ser vistas como responsáveis pela inadequação dos sistemas de ensino às verdadeiras necessidades educacionais da população,
apesar de serem aspectos importantes. Ao se adotar, de maneira mais ampla, os próprios sistemas de ensino como referencial de análise, constata-se que é imprescindível buscar soluções
para problemas como a inadequação do financiamento, da gestão dos sistemas e das escolas e das concepções e práticas pedagógicas que permanecem reproduzindo modelos culturais de classes sociais diversas das dos alunos, potencializando o fracasso e o abandono escolar. Como o sistema educacional brasileiro em relação ao ensino fundamental ainda não conseguiu avançar em todas as dimensões mencionadas ao longo dos parágrafos anteriores, ao mesmo tempo e em todo o país, os dados existentes desnudam uma realidade preocupante, evidenciada
em estudos estatísticos. Dados informam que a taxa de abandono no ensino fundamental regular
é de 7,5%, acrescida de uma distorção idade-série de 30% (BRASIL,
2005), o que revela a urgência de tratamento não fragmentário, mas totalizante e sistêmico, sem o que se corre o risco de manter invisibilizada socialmente grande parcela da população brasileira.
Nesse sentido, quando se verificam dados de escolaridade da PNAD/ IBGE -2005, pode-se observar que, nesse ano, 19,7 milhões de pessoas possuíam apenas 4 anos de estudos, ou seja, haviam concluído apenas a 4a série do ensino fundamental. Ao incluir aqueles que têm até 7 anos
de estudos, portanto, que ainda não concluíram o ensino fundamental, esse número sobe para 47,6 milhões de pessoas. Não se pode esquecer que essas pessoas são brasileiros e brasileiras que têm família, que moram em um certo lugar, que têm uma existência concreta, que têm projetos
e objetivos de vida e que, deste modo, não podem ser escondidas em dados estatísticos. Esse contingente referido representava cerca de 26% do total da população do país naquele ano, por conseguinte, pode-se inferir o baixo nível de escolaridade dos brasileiros que enfrentam o mundo do trabalho. Nesse sentido, merece ainda destaque o fato de que essa significativa quantidade de cidadãos com menos de 8 anos de escolarização tem efetivamente comprometida suas possibilidades de inserção social, política, cultural e econômica em uma sociedade que exige níveis cada vez mais crescentes de escolarização e de certificação profissional.
A NECESSIDADE DE INTEGRAR A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL/FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA E O ENSINO FUNDAMENTAL NA MODALIDADE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
A situação educacional caracterizada nos parágrafos anteriores,
quando associada à crescente elevação de escolaridade exigida
pelo mundo do trabalho, produz um aumento da demanda pela oferta
do ensino fundamental na modalidade de Educação de Jovens e Adultos,
que, efetivamente, vem se constituindo em realidade nos sistemas
de ensino do país. Nessa perspectiva, os dados do Censo Escolar 2005
revelam que a matrícula da 5ª à 8ª série do ensino fundamental, na
modalidade EJA, alcançou o número de 1.906.976.
No entanto, apesar do avanço significativo do número de matrículas,
os problemas mencionados em relação ao ensino fundamental denominado
regular, são ampliados na EJA. Dessa forma, é ainda mais
elevada a evasão no ensino fundamental nessa modalidade.
Nessa esfera, apesar de o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC) não registrar oficialmente a
evasão no ensino fundamental na modalidade EJA, os dados da Secretaria
de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério
da Educação (SECAD), obtidos em 2006, junto às Secretarias
Estaduais de Educação, revelam um índice em torno de 30%.
Essa elevada evasão parece ter múltiplas razões. Muitas vezes é ocasionada
pela mesma inadequação escolar já comentada anteriormente
no caso das escolas de ensino fundamental regular, outras, pela necessidade
de o estudante trabalhar, o que em geral, é mais urgente do
que continuar os estudos e, no caso das mulheres, a gravidez e outras
questões familiares contribuem para que elas abandonem, outra vez,
a escola.
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Ainda conforme a SECAD, os estudantes do ensino fundamental na modalidade
EJA são pessoas para as quais foi negado o direito à educação,
durante a infância ou adolescência: homens e mulheres, brancos,
negros, índios e quilombolas, trabalhadores empregados e desempregados,
filhos, pais e mães, moradores dos centros urbanos e das áreas
rurais. Algumas dessas pessoas nunca foram à escola ou dela tiveram
que se afastar em função da entrada precoce no mundo do trabalho ou
mesmo por falta de escolas. A maioria daquelas que já passou pela instituição
escolar carrega uma história marcada por numerosas repetências
e interrupções. Entretanto, observa-se que, quando retornam à escola,
levam significativa gama de conhecimentos e saberes construídos ao
longo de suas vidas.
Coerentemente com essa realidade, o diagnóstico já mencionado revela
que alguns motivos de evasão são recorrentes: nível socioeconômico;
dificuldade para conciliar trabalho, família e estudo, assim como horário
de trabalho e horário escolar; não-adaptação à vida escolar; tipo de proposta
pedagógica da escola; mudança no horário de trabalho; gravidez;
novo emprego; mudança de endereço residencial; baixo desempenho
e reiteradas repetências; cansaço; problemas de visão; problemas familiares;
distância da escola; doenças; transporte; horário; período de safra
na zona rural; dupla ou tripla jornada de trabalho; processo avaliativo
deficiente e excludente; migração para outras cidades/bairros; e baixa
auto-estima.
Além disso, constata-se, de forma ainda mais intensa do que na oferta
regular, que muitos dos concluintes do ensino fundamental na modalidade
Educação de Jovens e Adultos não realizam as aprendizagens a
que se propõe essa etapa de escolarização. Assim, parcela significativa
desses sujeitos logra um certificado que tem pouca vinculação com os
conhecimentos aos quais deveria corresponder.
Essas questões contribuem para que o ensino fundamental na modalidade
EJA não tenha tanto significado quanto poderia ter para seus
grupos destinatários, pois a conclusão do curso muitas vezes não alcança
o objetivo de produzir melhorias tangíveis nas condições de vida
desses sujeitos. Ao concluir essa etapa da educação, grande parte não
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vislumbra a possibilidade de ascender profissionalmente, de obter uma
melhoria salarial ou de continuar os estudos.
Nesse contexto, a integração da formação inicial e continuada de trabalhadores
com o ensino fundamental na modalidade EJA é uma opção
que tem possibilidade real de conferir maior significado a essa formação,
pois tem o poder de incidir diretamente na melhoria da qualificação
profissional dos sujeitos aos quais se destina. Não se trata, de maneira
alguma, de subsumir o conteúdo propedêutico do ensino fundamental
a uma preparação para o mundo do trabalho, mas sim de garantir a
totalidade do primeiro integrando-o à segunda.
Esse tipo de formação colaborará de uma forma mais imediata e direta
para a qualificação profissional. Mas é fundamental percebê-la também
numa perspectiva de longo prazo, mais ousada, ou seja, devem-se criar
as condições para que os concluintes possam efetivamente retomar sua
trajetória educacional e continuar os estudos no nível médio, o que poderá
contribuir, inclusive, para o acesso ao ensino superior.
O panorama até aqui delineado, tanto no que concerne ao ensino fundamental
destinado às crianças, quanto aos jovens e adultos, exige a implementação
urgente de políticas bem planejadas e coordenadas entre
as distintas esferas de governo, para atender os grupos destinatários do
ensino fundamental em duas dimensões a seguir delineadas.
Por um lado, faz-se necessária uma política definitiva e perene com vistas
à melhoria das propostas do ensino fundamental e médio, a fim de
minimizar o abandono escolar, assegurar a universalização do acesso e
efetivamente promover a aprendizagem. Essa é a política estruturante
e sua concretização passa obrigatoriamente pelo enfrentamento dos
problemas do ensino fundamental e médio, discutidos ao longo deste
e dos demais documentos que fundamentam a Educação Profissional
e tecnológica na perspectiva de sua integração com a Educação Básica
(BRASIL, 2006).
É o êxito dessa política que vai permitir que crianças e adolescentes,
independentemente de sua origem socioeconômica, possam concluir
o ensino fundamental com qualidade e prosseguir os estudos no ensino
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médio, completando uma Educação Básica que efetivamente os habilite
para uma inserção digna na sociedade em suas dimensões social,
política, cultural e do mundo do trabalho, assim como para o prosseguimento
de estudos no nível superior.
Igualmente importante é a implementação de uma política voltada
para o atendimento aos jovens e adultos que não concluíram o ensino
fundamental e médio na faixa etária denominada “regular”. Esses cidadãos,
em geral, não têm nem a escolarização mínima nem qualquer
tipo de formação profissional, exigidas até mesmo para as tarefas mais
simples do mundo do trabalho contemporâneo. Para esse contingente
populacional, é fundamental associar a elevação de escolaridade a uma
formação profissional, ainda que básica em seu primeiro momento.
Não obstante, é imperioso ter clareza de que a segunda política mencionada
– a direcionada aos jovens e adultos – apesar da necessidade de
constituir-se de forma perene, precisa ser pensada também como tendo
um horizonte a partir do qual não seja mais necessária, pelo menos nos
moldes atuais. Isso porque a primeira – dirigida aos que se encontram
na faixa etária denominada “regular” – tem que alcançar o êxito esperado.
Dito de outra forma, dentro de um determinado horizonte, mesmo
que não seja possível prevê-lo agora, é fundamental que sejam universalizados
não apenas o acesso ao ensino fundamental e médio público,
gratuito e de qualidade, mas também a permanência e a conclusão para
todos os jovens brasileiros.
Diante dessa realidade, a integração da Educação Profissional/formação
inicial e continuada com o ensino fundamental na modalidade Educação
de Jovens e Adultos visa contribuir para a melhoria das condições
de inserção social, econômica, política e cultural dos jovens e adultos
que não concluíram o ensino fundamental. Assim, essa nova possibilidade
educativa considera as especificidades do mundo do trabalho, mas
não se restringe a elas.
PRESSUPOSTOS GERAIS
Este texto é parte integrante dos documentos que fundamentam o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos - PROEJA -, por essa razão, incorpora-se aqui toda a discussão acerca
da problemática da Educação Básica brasileira que integra os capítulos 1 e 2 do Documento Base do PROEJA (BRASIL, 2006), respectivamente “A Educação de Jovens e Adultos no Brasil” e “Percursos descontínuos e em descompasso em relação à Educação Básica no Estado brasileiro”. Entretanto, o referido Documento Base tem o enfoque na integração entre o ensino médio e os cursos técnicos de nível médio, enquanto este tem por objetivos fazer uma reflexão e propor fundamentos acerca da integração entre a formação inicial e continuada de trabalhadores
e os anos finais do ensino fundamental na modalidade de Educação de Jovens e Adultos – EJA.
Este capítulo está organizado em duas seções – na primeira, discutese a Educação Básica com ênfase no acesso, qualidade e permanência no ensino fundamental e suas implicações tanto para as crianças e adolescentes da denominada “faixa etária regular” como para o público
EJA. Na segunda, aponta-se para a necessidade de integrar os anos finais do ensino fundamental, na modalidade Educação de Jovens e Adultos, com a Educação Profissional/formação inicial e continuada, a fim de tornar essa etapa de escolarização mais significativa para o público da EJA.
ACESSO, PERMANÊNCIA E QUALIDADE DA EDUCAÇÃO BÁSICA EM GERAL E DO ENSINO FUNDAMENTAL EM PARTICULAR: O QUADRO ATUAL
No ensino fundamental, a universalização do acesso está sendo alcançada, mas problemas como a qualidade dos processos educacionais, a dualidade público versus privado, a repetência e a evasão persistem. Aproximadamente, 97% das crianças de 7 a 14 anos têm acesso ao ensino
fundamental, entretanto deficiências dos sistemas de ensino que se refletem na escola terminam provocando a evasão das crianças das classes populares do ensino fundamental.
Assim, vem se constatando que os fundamentos das práticas pedagógicas permanecem reproduzindo modelos culturais de classes sociais diversas das dos alunos, contribuindo para o fracasso escolar e a chamada evasão. Além disso, muitos dos que conseguem chegar ao final do
ensino fundamental sequer dominam a leitura, a escrita e os conhecimentos inerentes a essa etapa de escolarização.
No que se refere à dualidade entre a oferta pública e privada do ensino fundamental, os números do Censo Escolar 2005 revelam que, do total de 37.432.378 estudantes matriculados no ensino fundamental, incluindo a modalidade Educação de Jovens e Adultos, 91,80% estão em escolas
públicas, enquanto 9,2% estudam em escolas privadas. No ensino médio, a proporção é semelhante, pois 88,2% da população está matriculada em escolas públicas. Entretanto, no ensino superior há uma inversão completa, a começar pelas porcentagens de matrícula, pois quase 71% dessa população está em instituições privadas. Além disso, os que vão, majoritariamente, para os cursos de maior concorrência na educação superior pública, em geral, são os poucos que estudaram na iniciativa privada no ensino fundamental e no ensino
médio. Enquanto isso, parcela significativa do pequeno contingente de filhos das classes populares que logram uma vaga no ensino superior, o fazem, em sua grande maioria, em instituições privadas. Isso acontece não por opção, mas porque a Educação Básica que lhes foi destinada confere um certificado, mas não os conhecimentos necessários ao competitivo
processo de seleção com vistas ao ingresso nos cursos mais concorridos e reconhecidos oferecidos pelas instituições de educação superior públicas (MOURA, 2006). Esse é, em linhas gerais, o fluxo percorrido pelos estudantes brasileiros dentro de suas respectivas classes sociais. Um fluxo que continuará perpetuando a reprodução das classes, via sistema educacional, caso não
sejam produzidas mudanças significativas na educação pública e gratuita, em todos os níveis, com vistas à melhoria de sua qualidade e à ampliação de vagas destinadas às classes populares (MOURA, 2006). Portanto, a correção desse fluxo começa obrigatoriamente pelos primeiros anos de escolarização, ou seja, na educação infantil e no ensino fundamental. Neste trabalho, em função dos objetivos próprios, o esforço de análise se concentrará no ensino fundamental.
Paralelamente ao processo pelo qual as políticas públicas se voltam para a chamada universalização do atendimento e a escola básica deixa de ser elitizada, passando a atender também as classes populares, torna-se evidente que o acesso não é suficiente para dar conta das aprendizagens e dos processos de produção de saberes. Assim sendo, é necessário buscar as raízes dessa problemática, que vem se constituindo como um fator significativo da grande quantidade de jovens e adultos que sequer concluíram essa etapa da Educação Básica no Brasil.
Dentre as dificuldades que afloram diretamente nas escolas, mas cujas origens estão na estrutura da sociedade e nos próprios sistemas de ensino, merecem destaque as questões relacionadas às concepções de educação e às práticas pedagógicas; ao financiamento da educação; à gestão desses sistemas e das escolas especificamente; à infra-estrutura física; à formação dos professores, assim como ao déficit quantitativo desses profissionais. No que diz respeito ao financiamento - reconhecidamente insuficiente para o atendimento da demanda educacional da sociedade brasileira -, recentemente entrou em vigor o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - FUNDEB -, em substituição ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério - FUNDEF -, que só garantia vinculação constitucional de recursos para o ensino fundamental. Assim, o FUNDEB amplia essa vinculação para a educação infantil, para o ensino médio e para a modalidade EJA. Evidentemente, o aumento de 15% (Lei nº 9.424/1996) para 20%, após o quarto ano de implantação do FUNDEB, sobre uma base de arrecadação constituída a partir da mesma lógica do FUNDEF, realmente representa um maior volume de recursos
destinado à educação. Entretanto, a criação e a implantação do FUNDEB também aumentarão
substancialmente a população atendida. A título de exemplo, utilizando- se dados de 2005 do INEP, o FUNDEB teria que atender, além das 37.432.378 matrículas do ensino fundamental (única etapa que era contemplada pelo FUNDEF), as 10.748.894 matrículas do ensino médio, ambos incluindo a oferta denominada regular e a modalidade Educação de Jovens e Adultos, e também as 7.205.013 da educação infantil. Também é importante esclarecer que, atualmente, no ensino médio apenas 51% (LODI, 2006) dos jovens de 15 a 19 anos são atendidos, o que implica a expectativa de um aumento significativo da matrícula nessa etapa nos próximos anos e, por conseguinte, de recursos para financiá-lo. Diante desse contexto, torna-se imprescindível acelerar a tramitação do Projeto de Lei de iniciativa do Senador Paulo Paim do PT-RS, que visa à
criação do Fundo de Desenvolvimento da Educação Profissional - FUNDEP - e, portanto, a definição de uma fonte perene de financiamento para a Educação Profissional, esfera na qual também estarão situados os cursos provenientes da política pública em discussão neste documento. Quanto à gestão dos sistemas de ensino, não são poucas as dificuldades.
Uma das mais significativas decorre das descontinuidades das políticas públicas na esfera educacional. Um aspecto que contribui para essa realidade é a elevada taxa de rotatividade dos dirigentes educacionais nos municípios, nos estados e, inclusive, no âmbito federal. Essa elevada alternância associada à falta de uma política de estado para a educação contribui para que alguns dirigentes, ao assumirem os cargos, promovam sua própria política educacional ou a do grupo político-partidário ao qual pertencem. Some-se a isso o fato de que dentro de cada ciclo de quatro anos de governo, costuma haver mudanças entre os dirigentes educacionais. Evidentemente, esse quadro não é generalizado, entretanto, afeta grande
parte do território nacional. Também há casos em que a gestão das unidades educacionais contribui para a inadequação da escola às necessidades da população. Nesse domínio, muito se tem falado e escrito acerca da gestão democrática, mas, na verdade, pouco de concreto se realizou. Em muitas regiões do país, a escolha dos dirigentes escolares está atrelada à vinculação dos postulantes a um alinhamento político-partidário com o grupo que detém o poder estadual ou municipal em cada momento histórico. Em outros casos, quando se supera a barreira da indicação pela via mencionada, a concepção de gestão democrática é reducionista e se resume,
muitas vezes, à eleição para o cargo de dirigente escolar. É claro que isso pode representar um avanço em relação à simples indicação, entretanto, é apenas um indicador, longe de ser determinante de uma gestão efetivamente democrática.
Para que a gestão escolar avance na perspectiva de se tornar efetivamente democrática, é urgente buscar a superação dos processos decisórios centrados nos indivíduos ou em pequenos grupos - mesmo que eleitos - em benefício de processos de construção e decisões coletivas,
que devem envolver, além dos dirigentes, os docentes, o pessoal técnico- administrativo, os estudantes, os seus familiares e a própria comunidade onde está inserida cada unidade escolar.Um fator essencial de construção coletiva em cada escola é o respectivoprojeto-político-pedagógico (PPP). Ao adotar esse referencial, seguramente, se estará contribuindo para que o PPP de cada escola deixe de ser uma mera formalidade exigida pela Lei de Diretrizes e Bases da EducaçãoNacional. Esse princípio - o da construção coletiva - quando levado à prática, pode contribuir efetivamente para que a comunidade escolar compreenda a sociedade onde está inserida, o papel da educação nessa sociedade, a função social da própria unidade escolar, o papel dos profissionais que nela trabalham e o significado dos conteúdos e das atividades pedagógicas selecionados. O PPP elaborado a partir dessa concepção poderá contribuir para o fortalecimento da relação teoria-prática e o aperfeiçoamento do fazer pedagógico nas escolas.
A formação de professores, tanto inicial quanto continuada, constituise como elemento central, quando se trata da docência na educação brasileira. Entretanto, há outras dimensões que precisam ser consideradas como a carreira docente, a necessidade de reconhecimento social
e econômico, as adequadas condições de trabalho, inclusive a segurança física e patrimonial, e uma contínua avaliação e assessoramento dos processos pedagógicos das instituições. Assim, é necessário pensar todas essas dimensões de forma relacional, pois apenas a questão salarial e as deficiências na formação dos docentes não podem ser vistas como responsáveis pela inadequação dos sistemas de ensino às verdadeiras necessidades educacionais da população,
apesar de serem aspectos importantes. Ao se adotar, de maneira mais ampla, os próprios sistemas de ensino como referencial de análise, constata-se que é imprescindível buscar soluções
para problemas como a inadequação do financiamento, da gestão dos sistemas e das escolas e das concepções e práticas pedagógicas que permanecem reproduzindo modelos culturais de classes sociais diversas das dos alunos, potencializando o fracasso e o abandono escolar. Como o sistema educacional brasileiro em relação ao ensino fundamental ainda não conseguiu avançar em todas as dimensões mencionadas ao longo dos parágrafos anteriores, ao mesmo tempo e em todo o país, os dados existentes desnudam uma realidade preocupante, evidenciada
em estudos estatísticos. Dados informam que a taxa de abandono no ensino fundamental regular
é de 7,5%, acrescida de uma distorção idade-série de 30% (BRASIL,
2005), o que revela a urgência de tratamento não fragmentário, mas totalizante e sistêmico, sem o que se corre o risco de manter invisibilizada socialmente grande parcela da população brasileira.
Nesse sentido, quando se verificam dados de escolaridade da PNAD/ IBGE -2005, pode-se observar que, nesse ano, 19,7 milhões de pessoas possuíam apenas 4 anos de estudos, ou seja, haviam concluído apenas a 4a série do ensino fundamental. Ao incluir aqueles que têm até 7 anos
de estudos, portanto, que ainda não concluíram o ensino fundamental, esse número sobe para 47,6 milhões de pessoas. Não se pode esquecer que essas pessoas são brasileiros e brasileiras que têm família, que moram em um certo lugar, que têm uma existência concreta, que têm projetos
e objetivos de vida e que, deste modo, não podem ser escondidas em dados estatísticos. Esse contingente referido representava cerca de 26% do total da população do país naquele ano, por conseguinte, pode-se inferir o baixo nível de escolaridade dos brasileiros que enfrentam o mundo do trabalho. Nesse sentido, merece ainda destaque o fato de que essa significativa quantidade de cidadãos com menos de 8 anos de escolarização tem efetivamente comprometida suas possibilidades de inserção social, política, cultural e econômica em uma sociedade que exige níveis cada vez mais crescentes de escolarização e de certificação profissional.
A NECESSIDADE DE INTEGRAR A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL/FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA E O ENSINO FUNDAMENTAL NA MODALIDADE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
A situação educacional caracterizada nos parágrafos anteriores,
quando associada à crescente elevação de escolaridade exigida
pelo mundo do trabalho, produz um aumento da demanda pela oferta
do ensino fundamental na modalidade de Educação de Jovens e Adultos,
que, efetivamente, vem se constituindo em realidade nos sistemas
de ensino do país. Nessa perspectiva, os dados do Censo Escolar 2005
revelam que a matrícula da 5ª à 8ª série do ensino fundamental, na
modalidade EJA, alcançou o número de 1.906.976.
No entanto, apesar do avanço significativo do número de matrículas,
os problemas mencionados em relação ao ensino fundamental denominado
regular, são ampliados na EJA. Dessa forma, é ainda mais
elevada a evasão no ensino fundamental nessa modalidade.
Nessa esfera, apesar de o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC) não registrar oficialmente a
evasão no ensino fundamental na modalidade EJA, os dados da Secretaria
de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério
da Educação (SECAD), obtidos em 2006, junto às Secretarias
Estaduais de Educação, revelam um índice em torno de 30%.
Essa elevada evasão parece ter múltiplas razões. Muitas vezes é ocasionada
pela mesma inadequação escolar já comentada anteriormente
no caso das escolas de ensino fundamental regular, outras, pela necessidade
de o estudante trabalhar, o que em geral, é mais urgente do
que continuar os estudos e, no caso das mulheres, a gravidez e outras
questões familiares contribuem para que elas abandonem, outra vez,
a escola.
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Ainda conforme a SECAD, os estudantes do ensino fundamental na modalidade
EJA são pessoas para as quais foi negado o direito à educação,
durante a infância ou adolescência: homens e mulheres, brancos,
negros, índios e quilombolas, trabalhadores empregados e desempregados,
filhos, pais e mães, moradores dos centros urbanos e das áreas
rurais. Algumas dessas pessoas nunca foram à escola ou dela tiveram
que se afastar em função da entrada precoce no mundo do trabalho ou
mesmo por falta de escolas. A maioria daquelas que já passou pela instituição
escolar carrega uma história marcada por numerosas repetências
e interrupções. Entretanto, observa-se que, quando retornam à escola,
levam significativa gama de conhecimentos e saberes construídos ao
longo de suas vidas.
Coerentemente com essa realidade, o diagnóstico já mencionado revela
que alguns motivos de evasão são recorrentes: nível socioeconômico;
dificuldade para conciliar trabalho, família e estudo, assim como horário
de trabalho e horário escolar; não-adaptação à vida escolar; tipo de proposta
pedagógica da escola; mudança no horário de trabalho; gravidez;
novo emprego; mudança de endereço residencial; baixo desempenho
e reiteradas repetências; cansaço; problemas de visão; problemas familiares;
distância da escola; doenças; transporte; horário; período de safra
na zona rural; dupla ou tripla jornada de trabalho; processo avaliativo
deficiente e excludente; migração para outras cidades/bairros; e baixa
auto-estima.
Além disso, constata-se, de forma ainda mais intensa do que na oferta
regular, que muitos dos concluintes do ensino fundamental na modalidade
Educação de Jovens e Adultos não realizam as aprendizagens a
que se propõe essa etapa de escolarização. Assim, parcela significativa
desses sujeitos logra um certificado que tem pouca vinculação com os
conhecimentos aos quais deveria corresponder.
Essas questões contribuem para que o ensino fundamental na modalidade
EJA não tenha tanto significado quanto poderia ter para seus
grupos destinatários, pois a conclusão do curso muitas vezes não alcança
o objetivo de produzir melhorias tangíveis nas condições de vida
desses sujeitos. Ao concluir essa etapa da educação, grande parte não
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vislumbra a possibilidade de ascender profissionalmente, de obter uma
melhoria salarial ou de continuar os estudos.
Nesse contexto, a integração da formação inicial e continuada de trabalhadores
com o ensino fundamental na modalidade EJA é uma opção
que tem possibilidade real de conferir maior significado a essa formação,
pois tem o poder de incidir diretamente na melhoria da qualificação
profissional dos sujeitos aos quais se destina. Não se trata, de maneira
alguma, de subsumir o conteúdo propedêutico do ensino fundamental
a uma preparação para o mundo do trabalho, mas sim de garantir a
totalidade do primeiro integrando-o à segunda.
Esse tipo de formação colaborará de uma forma mais imediata e direta
para a qualificação profissional. Mas é fundamental percebê-la também
numa perspectiva de longo prazo, mais ousada, ou seja, devem-se criar
as condições para que os concluintes possam efetivamente retomar sua
trajetória educacional e continuar os estudos no nível médio, o que poderá
contribuir, inclusive, para o acesso ao ensino superior.
O panorama até aqui delineado, tanto no que concerne ao ensino fundamental
destinado às crianças, quanto aos jovens e adultos, exige a implementação
urgente de políticas bem planejadas e coordenadas entre
as distintas esferas de governo, para atender os grupos destinatários do
ensino fundamental em duas dimensões a seguir delineadas.
Por um lado, faz-se necessária uma política definitiva e perene com vistas
à melhoria das propostas do ensino fundamental e médio, a fim de
minimizar o abandono escolar, assegurar a universalização do acesso e
efetivamente promover a aprendizagem. Essa é a política estruturante
e sua concretização passa obrigatoriamente pelo enfrentamento dos
problemas do ensino fundamental e médio, discutidos ao longo deste
e dos demais documentos que fundamentam a Educação Profissional
e tecnológica na perspectiva de sua integração com a Educação Básica
(BRASIL, 2006).
É o êxito dessa política que vai permitir que crianças e adolescentes,
independentemente de sua origem socioeconômica, possam concluir
o ensino fundamental com qualidade e prosseguir os estudos no ensino
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médio, completando uma Educação Básica que efetivamente os habilite
para uma inserção digna na sociedade em suas dimensões social,
política, cultural e do mundo do trabalho, assim como para o prosseguimento
de estudos no nível superior.
Igualmente importante é a implementação de uma política voltada
para o atendimento aos jovens e adultos que não concluíram o ensino
fundamental e médio na faixa etária denominada “regular”. Esses cidadãos,
em geral, não têm nem a escolarização mínima nem qualquer
tipo de formação profissional, exigidas até mesmo para as tarefas mais
simples do mundo do trabalho contemporâneo. Para esse contingente
populacional, é fundamental associar a elevação de escolaridade a uma
formação profissional, ainda que básica em seu primeiro momento.
Não obstante, é imperioso ter clareza de que a segunda política mencionada
– a direcionada aos jovens e adultos – apesar da necessidade de
constituir-se de forma perene, precisa ser pensada também como tendo
um horizonte a partir do qual não seja mais necessária, pelo menos nos
moldes atuais. Isso porque a primeira – dirigida aos que se encontram
na faixa etária denominada “regular” – tem que alcançar o êxito esperado.
Dito de outra forma, dentro de um determinado horizonte, mesmo
que não seja possível prevê-lo agora, é fundamental que sejam universalizados
não apenas o acesso ao ensino fundamental e médio público,
gratuito e de qualidade, mas também a permanência e a conclusão para
todos os jovens brasileiros.
Diante dessa realidade, a integração da Educação Profissional/formação
inicial e continuada com o ensino fundamental na modalidade Educação
de Jovens e Adultos visa contribuir para a melhoria das condições
de inserção social, econômica, política e cultural dos jovens e adultos
que não concluíram o ensino fundamental. Assim, essa nova possibilidade
educativa considera as especificidades do mundo do trabalho, mas
não se restringe a elas.